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17 de Outubro de 2019

Brasil desperdiça milhões de litros de sangue por ano. Entenda o motivo!

Uma análise crítica sobre o direito de doar sangue.

Juliana Jennifer, Advogado
Publicado por Juliana Jennifer
há 6 meses

Era começo dos anos 80, um vírus desconhecido matou cerca de 40 homens em hospitais dos Estados Unidos. Alguns pacientes morriam logo após dar entrada nos hospitais. O vírus era tão agressivo, que sobreviventes afirmaram na época não possuir mais esperança na medicina.

Médicos e enfermeiros tentavam descobrir, através de exames e análises medicinais, o que poderia ter infectado os pacientes e quais eram as causas, mas só sabiam que ali nascia uma pandemia. Depois de avaliarem o perfil de cada um desses pacientes, encontraram um padrão: todos eram homens homossexuais. Daí, nasceu o “câncer gay”, assim chamado na época.

No decorrer da década, a doença viralizou completamente e outros grupos (mulheres e homens heterossexuais) que se diziam salvos do vírus, tinham sido afetados através de transfusões de sangue. A busca pela identificação da doença continuava… e muita gente morreu ao longo desse tempo. Com a disseminação do vírus foram descobertos alguns pontos sobre a doença, momentaneamente chamada de grid “gay-related immune deficiency”, ou imunodeficiência relacionada aos gays, em português.

O fato é que, inicialmente a doença não havia surgido somente em homens gays. Hemófilos, usuários de drogas injetáveis e até haitianos faziam parte do grupo inicial de infectados. O termo grid foi “apelidado” pela população e depois de um tempo substituído por AIDS “acquired immunodeficiency syndrome”, síndrome da imunodeficiência adquirida.

Com o avanço nas descobertas sobre a AIDS, o grupo inicial de pessoas infectadas passaram a fazer parte do chamado “grupo de risco”, por serem considerados pessoas mais suscetíveis à doença.

Até aqui tudo bem. Mas qual o problema?

O único problema é que o conceito de grupo de risco é o mesmo até hoje.

No Brasil, cerca de 18 milhões de litros de sangue são desperdiçados diariamente nos hemocentros, segundo dados do IBGE.

Isso porque, homossexuais que tiveram relações sexuais nos últimos 12 meses e desejam fazer doações de sangue, são proibidos de doar por estarem inseridos no grupo de risco.

O ministério da saúde afirmou que os pontos de restrição são apenas regras seguidas pela Organização Mundial de Saúde. A restrição ainda foi denominada como um “conjunto de regras sanitárias” que visam proteger o receptor do sangue, mas que é vista (atualmente) como preconceituosa e homofóbica.

De qualquer forma, iremos analisar duas situações:

  • O homossexual que possui parceiro fixo não contaminado, e pratica relações sexuais com preservativos não corre o risco de receber (muito menos transmitir) o vírus por meio de relação sexual. Assim como mulheres e homens heterossexuais que possuem parceiro fixo e se protegem, tem a mesma taxa de risco.

  • Homossexuais que não possuem parceiro fixo e tiveram vários parceiros ao longo do ano, e não utilizam preservativos possuem a mesma taxa de risco de homens e mulheres heterossexuais que tiveram vários parceiros e também não utilizam preservativos.

Ou seja, são duas situações distintas que agrupam uma relação de igualdade.

Hoje em dia, ambos seriam facilmente detectados através da análise sanguínea doada, caso estivessem contaminados.

Vamos analisar outro ponto…

Uma mulher, casada, dona de casa e mãe de 3 filhos, que tenha contraído AIDS através de relações sexuais com seu marido, que é soro positivo, possui uma taxa de risco maior do que homossexuais, não?

Pesquisando sobre o tema, vi uma das entrevistas do Dr. Drauzio Varella, em que ele afirma:

"O que interessa é o número de parceiros sexuais que você tem, e o estado de infecção (ou não) desses parceiros.”

Na mesma entrevista, ele diz que mesmo com esse novo conceito, o preconceito está enraizado desde a descoberta da doença.

Desde 2016, uma Ação direta de Inconstitucionalidade está sendo analisada pelo Supremo Tribunal Federal, contra as normas do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A tentativa é de tirar homossexuais do grupo de risco e acabar com a restrição.

A flexibilização desses critérios de doações iria privilegiar milhões de pessoas que precisam de doações de sangue todos os dias no Brasil, e acabar com o veto que acentua homossexuais como incapazes, e os impossibilita de denominarem a escolha de salvar vidas por livre e espontânea vontade.

E você, o que pensa sobre o assunto?
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Photo: Unsplash

22 Comentários

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Como você mesma disse: "grupo de risco até hoje"! Puro preconceito - custa fazer exames no sangue do doador gay, um pouco mais aprofundada? Digo isso porque se o problema é ser gay, resolvam de alguma forma; o que não dá é para seguir assim - faltando, quando sobra!
Bom texto.
Obrigada por compartilhar continuar lendo

Verdade, Elane. Não tem cabimento continuar com essa restrição retrógrada e ilógica. continuar lendo

Parabéns pelo artigo.
Grupo de risco trata-se do mais puro preconceito, afinal qualquer ser pode ser contaminado. Além do mais, qualquer doador passa por rigorosa bateria de exames. continuar lendo

Concordo 100% com você, Ju! Qualquer um de nós estamos suscetíveis à vírus, seja ele qual for.
A propósito, a fase de análise do sangue já é rigorosa, após a doação. continuar lendo

Muito bom o texto.
Torcendo para que essa ação que tramita surta efeito e acabe com essa ação preconceituosa.
É um absurdo ver legislações tão arcaicas como está.
O mundo ainda tem muito o que evoluir.
Parabéns por levantar a discussão.
Sucesso! continuar lendo

Pura verdade! É uma pena que estejamos evoluindo em alguns pontos e em outros não.
Essa ação tramita desde 2016 e está suspensa desde 2017. Mas vamos ver no que vai dar.
Obrigada pelo comentário, Suely! continuar lendo

Eu penso que o governo tem que se empenhar nos exames de sangue coletados. Independente de quem doa. Pois qualquer doença pode estar em qualquer sangue. Mesmo aquele que é considerado fora de risco. Pra mim todos corremos risco. continuar lendo

Sim! Após a coleta, uma bateria de exames é feita. A restrição contra os grupos de risco acontece logo na fase da entrevista, antes da doação.
Obrigada pelo comentário! continuar lendo